Marc Souza

Agente penitenciário, escritor e Diretor do Sifuspesp
compartilhe>

 

Por Marc Souza, Agente Penitenciário e Escritor - Diretor do Sifuspesp 

 

Naquele momento, um filme passou pela sua cabeça. Um filme, que, aparentemente, chegava ao fim.

É interessante que, em segundos, toda a sua vida foi passada a limpo. Suas alegrias e decepções. Seus medos e suas angústias.

De repente, um dos seus maiores medos estava se tornando realidade: Sair de casa para o trabalho, e, não retornar.

Foram anos de medo e angústia, anos orando, pedindo a Deus para que lhe protegesse, para que, lhe livrasse daquela situação que estava vivendo naquele momento.

O que fazer naquela situação? Entregar-se passivamente, tal qual um animal diante do seu algoz, ou lutar com todas as forças buscando meios de sobreviver diante daquela situação em que a morte, parecia-lhe, era iminente?

A rebelião estava instalada.

Os presos queriam que seus direitos fossem respeitados: Melhores condições para o cumprimento da pena; Fim da superpopulação carcerária; Agilidade nos julgamentos de processos e concessão de benefícios; Transferência para outras unidades prisionais.

Quanto a ele, estava ali, abandonado à própria sorte, jogado no interior de uma cela suja, sentindo-se um boi de piranha, sangrando até a morte. Pego de refém quando fora liberar os sentenciados para o banho de sol, fora ameaçado, humilhado, agredido. Muito agredido. Seu corpo doía tanto que imaginava que aquele seria o seu fim.

Vez ou outra, um sentenciado entrava na cela, e, com estiletes improvisados ameaçavam a sua vida. Passavam o estilete pelo seu pescoço como se fosse cortá-lo, ameaçavam estocadas, chutavam-no, batiam-no. O ódio que vira nos olhos daquelas pessoas deixava-o ainda mais desesperado.

Parecia que ele era o responsável por todas as mazelas que aquelas pessoas estavam vivendo. Era como se ele não quisesse, também, uma unidade prisional sem superlotação, uma unidade prisional com melhores condições de trabalho e sobrevivência aos sentenciados ali recolhidos. Era como se ele fosse o responsável pela morosidade do poder judiciário.

Ouvia do lado de fora da cela, gritos. O medo, era quase palpável, a tensão era insuportável.

Então, sem conseguir evitar, começou a imaginar como seria a sua morte, começou a imaginar a sua família sem ele. Sua esposa. Seu filho.

“Que merda” – pensou. “Por que passar por aquela situação? O que fizera para merecer aquilo tudo?” Sempre fizera o seu trabalho da melhor maneira possível. Sempre foi um exemplo de pessoa e profissional, e agora, estava ali, com a vida por um fio, sendo acusado e responsável, por algo que sequer poderia mudar. Naquele momento ele era a figura do Estado negligenciador. A figura de um sistema omisso, moroso às vezes inerte causador do caos penitenciário que estavam vivendo.

“Será que eles não vêem que também sou vítima desse caos” – pensou, e quase gritou aos quatro ventos, tamanho era o seu desespero. “Será que eles não vêem que eu também sou prejudicado, machucado, marcado por toda esta incapacidade do estado em lidar com esta situação”. “Será que eles não vêem que eu também estou adoecendo e morrendo diante de tamanha negligência”.

Ao fechar os olhos viu seu filho chorar. Chorar a perda do pai. Chorar a perda do seu herói. Então, chorou. Não por ele, mas, pelos seus. Chorou por sua família, sua esposa. Chorou pelo seu filho.

De repente várias pessoas entram na cela em que estava recolhido. Com um estilete artesanal no pescoço ele é retirado da cela, em meio a socos e chutes e amarrado de braços abertos junto à grade da cela como se fosse um escudo humano.

Então...

Então, ele ouve um barulho ensurdecedor seguido de gritos desespero antes de perder os sentidos.

As marcas que tem no corpo, tal qual as dores que sente, praticamente desaparece ao ver o sorriso do seu filho e da sua esposa. Tais marcas e dores não o preocupam mais.

O que de fato o preocupa, são as dores que sente na alma. Dores estas que talvez nunca hão de desaparecer.

Dias depois, ao voltar ao trabalho, nota que nada, nada mudou. E tudo está como antes. Tendo a certeza de que tudo o que viveu, poderá se repetir, e se repetir, e se repetir, e que só resta a ele orar e pedir a Deus para que quando se repetir, não se apresente de forma mais trágica.

 

Por Marc Souza, Agente Penitenciário e Escritor - Diretor do Sifuspesp

 

De repente estamos no nosso derradeiro dia. O último, então...
O que pensaremos? Do que lembraremos?
Dos dias felizes ou dos dias tristes?
O que sentiremos? Alegria? Tristeza? Realização? Decepção?
Será que neste dia teremos aquele sentimento de dever cumprido, ou veremos passar um filme em nossas cabeças onde tudo poderia ter sido diferente?
Será que, realmente, combatemos o bom combate?
Ou fugimos, nos escondemos, deixando o tempo passar, entregando aos outros as responsabilidades que seriam nossas?
Será que fizemos jus as dádivas que recebemos?
Será que fizemos a diferença?
Está semana foi trágica, de repente, a vida de alguns se esvaiu... Pessoas boas, pessoas de bem.
Uma tragédia levou verdadeiros líderes, pessoas que, de fato, fizeram a diferença.
Pessoas que não deixaram a vida passar, assistindo-a pelas janelas de suas casas.
Pessoas que lutaram a favor de uma causa, a favor de uma categoria, em prol de um sonho.
Com certeza em seus últimos momentos pensaram no bem que fizeram. Nas batalhas que venceram, e nas vidas que transformaram e que, ainda, hão de transformar.
Combateram o bom combate e venceram.
Fizeram das dádivas que receberam um sentido para a vida de muitos.
Que sejam exemplo hoje, amanhã e sempre, de que a vida só vale a pena, se for vivida em função de um ideal, a serviço de um sonho. Que a vida só tem sentido se vivermos não só para nós, mas, também, para os nossos irmãos.
Que no último segundo de nossas vidas sejamos como eles e pensemos:
Não foi em vão.
Que assim seja!

 

Por Marc Souza - Agente Penitenciário e Escritor

 

É hoje.

 

Hoje.

Quanto tempo será que se passou?

 

Para mim. Pra mim parece que foi ontem.

 

Ainda sinto o cheiro de sangue. Um cheiro estranho, metálico, cheiro de ferrugem. Ainda ouço os gritos de desespero e de dor. Quando fecho os olhos ainda vejo aquelas imagens.

 

Será que um dia hei de esquecê-las?

 

Será que um dia os pesadelos acabarão?

 

É hoje. É hoje.

 

Não sei se estou preparado. Bem, na verdade, a última coisa que estou é preparado para voltar.

 

Os gritos de desespero me perseguem. Aqueles olhos desesperados insistem em me observar. Eu... Eu não consigo fugir. Eu... Eu não consigo esquecer.

 

Aquelas facas improvisadas, sujas de sangue. De inocentes? De culpados?

 

Aquelas pessoas mortas, estraçalhadas, odiadas.

 

Aqueles jovens vivos, mas... mortos. Mortos por dentro, sem alma, sem coração.

 

Deus? Deus? O que aconteceu naquele dia?

 

Por quê? Por quê? Por quê?

 

É hoje.

 

Hoje tudo voltará ao normal.

 

Mas o que é voltar ao norma?. Será que um dia voltarei ao normal?

 

Será? Será?

 

Foi num dia assim que tudo aconteceu. Um dia comum, normal. Um dia de trabalho.

 

Então de repente o caos se fez presente: A rebelião.

 

Não queria lembrar. Queria esquecer aquele fatídico dia. O pior.

 

Meu Deus!

 

Aqueles gritos. Aqueles olhares desesperados. Aquele choro.

 

Tanto sofrimento. Tanto horror. Quanto terror.

 

Eu... eu não consigo esquecer.

 

Hoje, depois de tanto tempo, sinto o cheiro de sangue, ouço os gritos de pavor. Vejo aqueles jovens.

 

Mesmo depois de tanto tempo, sinto a lâmina daquela faca no meu pescoço, apertando, apertando, apertando, sinto a morte à espreita, me observando.

 

Mesmo depois de tanto tempo, parece que foi ontem.

 

Mas hoje, hoje é um novo dia. Hoje tenho que voltar.

 

Não sei se consigo. Na verdade, acho que não.

 

Meus amigos dizem que nada mudou: A população carcerária aumentou.

 

Depois daquele dia muitos funcionários sequer voltaram ao trabalho.

 

Faltam funcionários, sobram presos e problemas.

 

Quanto a mim? Tenho que voltar, tenho uma família para cuidar. Tenho uma profissão a honrar. Sei que preciso de mais tempo, mas, fazer o quê?

 

Apesar de não estar liberado para o trabalho pelo médico, minha licença foi diminuída, cortada pela metade. O pior, é que um profissional que não me consultou, que sequer me conhece, que sequer sabe pelo que passei foi o responsável por isso. Tenho que trabalhar, preciso do dinheiro. Preciso sobreviver.

 

Sobreviver é o que faço.

 

Sobrevivo aos salários baixos, à falta de condição de trabalho, à superpopulação carcerária. Sobrevivo aos ataques e ameaças de morte e às agressões físicas e verbais.

 

Sobrevivo, simplesmente sobrevivo.

 

E agora, sobrevivo com meus medos e inseguranças causados por uma situação limite à qual vivo exposto.

 

Situação causada pela omissão do Estado que insiste em amontoar pessoas nas cadeias em situações totalmente desumanas, abandonando-as à própria sorte, sujeitas a todos os tipos de doenças e violência. Situação causada por benefícios e processos atrasados, não julgados, amontoados e esquecidos. Situação causada por uma política penitenciária totalmente omissa e inconseqüente.

 

Hoje é o dia.

 

A partir de hoje, no trabalho, não estarei mais só. A partir de hoje estaremos, para sempre, eu e meus fantasmas. Eu e os meus medos. Eu e minhas lembranças.

 

Lembranças que carregarei para sempre. Fantasmas que me farão companhia. Me assombrando e me lembrando a natureza humana. Os gritos de desespero. Os olhos assombrados. As dores sofridas. Tudo isso faz parte de mim agora. É parte de mim agora.

 

É hoje. Hoje estarei de volta.

 

Sem preparo. Sem apoio do governo. Sem condições.

 

Mas, com uma convicção, não foi em vão.

 

Todo o sofrimento que vi e vivi, toda a dor que senti, todo o desespero que presenciei, todo o medo que senti, e que agora fazem parte de mim, me deixaram mais forte.

 

Me fizeram um ser humano melhor.

 

Hoje quando as portas se fecharem às minhas costas, estarão lá, eu e minhas cicatrizes, eu e as minhas dores, eu e a minha vontade de servir à minha comunidade. Mesmo que esta comunidade sequer me conheça. Mesmo que esta comunidade, sequer, me reconheça. Mesma que esta comunidade, sequer imagina o peso de todas as dores que trago no coração.



Marc Souza

 

Agente Penitenciário e Escritor

 

Diretor Sifuspesp

 

 

O que leva uma pessoa a cometer suicídio?

O que leva uma pessoa a, de repente, deixar a sua vida de forma tão abrupta?

Solidão? Depressão? Problemas sociais? Dificuldades financeiras? Luto? Stress?

Quais dores uma pessoa pode sentir para atentar contra a própria vida?

Quais situações que podem levar o indivíduo a cometer tamanha tragédia?

O que leva uma pessoa a tamanho desespero, com dores físicas e emocionais tão intensas que faz com que a sua vida torna-se um fardo.

Um fardo tão pesado a ponto de não conseguir mais carregá-lo?

O que faz a vida perder o sentido a ponto de não haver mais amigos, filhos ou família?

O que faz uma pessoa a achar que a única forma de escapar de tamanha dor e sofrimento seja dar fim ao bem mais precioso que ela tem?

De repente, o simples fato de pensar em fechar os olhos e acordar em outro lugar, em outra vida, trás toda a felicidade há muito perdida.

Então neste momento só há este caminho a seguir.

Talvez seja isto que aconteça e, “de repente, não mais que de repente”, perdemos o interesse por tudo o que um dia nos fez sentido.

E deixar de viver torna-se a única ou a melhor solução.

Não há uma regra clara que determina se vamos ou não cometer suicídio.

Não há situações específicas, tampouco, explicações.

 

Não devemos esquecer que uma das causas que podem desencadear o suicídio entre nossa categoria é o stress, principalmente o stress no ambiente de trabalho. E uma das consequências do stress pode ser a Depressão - uma das maiores, senão a maior causa de suicídio no mundo.

O agente prisional vive dia o medo e a angústia de exercer uma profissão totalmente insegura, que coloca a sua vida em risco, tanto no ambiente de trabalho, onde é vítima de ameaças, agressões, rebeliões, assim como fora dele, onde é vítima de atentados por parte do crime organizado ou não.

É vítima também do trabalho excessivo causado pela falta de funcionários e a superpopulação carcerária que impera nos presídios, penitenciárias e cadeias de todo o país. Do acompanhamento diário de vidas abandonadas à própria sorte pelo estado, que são amontoados em celas superlotadas sem um mínimo de condições de sobrevivência. Da proximidade com o sofrimento, a doença, a violência e a morte.

Junta-se a tudo isso uma falta de perspectiva de futuro, causado pelas atitudes de um governo que ignora a profissão e tudo que vem dela. Um governo que contrata pouco, mesmo sabendo da necessidade de funcionários. Que cria poucas vagas para a internação de novos sentenciados, deixando-os aglomerados, jogados, amontoados nas unidade prisionais. Um governo que exige dos seus subordinados uma conduta policial, mas que não os reconhece como tal. Um governo que não dá assistência médica nem psicológica aos seus funcionários. Que nega licenças médicas exigindo que funcionários doentes exerçam suas funções sem estarem devidamente preparados. Um governo que paga mal e que está há anos sem dar sequer a correção inflacionária aos seus profissionais, deixando muitos destes, endividados e reféns de bancos, morando em locais de risco, com alto grau de criminalidade, sendo assim reféns do crime organizado dentro e fora do ambiente prisional.

Quantos de nós já se foram?

Quantos agentes penitenciários decidiram pôr fim à sua vida de forma violenta e abruptamente neste ano?

Quais foram os motivos que os levaram a tomar tal decisão? Quais foram as causas? Solidão? Depressão? Problemas sociais? Dificuldades financeiras?Luto? Stress?

Não sabemos. A verdade é que a cada dia que passa vemos mais companheiros doentes. A cada dia que passa assistimos nossos companheiros de trabalho atentarem contra a própria vida. Tendo suas vidas ceifadas de forma vil e violenta, trazendo aos seus, amigos e familiares, muita dor. Deixando marcas irreparáveis. Destruindo famílias inteiras.

De quem é a culpa? Minha? Sua? Nossa? De todos nós, que preocupados com nossas vidas pessoais, absortos em nossos problemas diários não vimos os sinais dados por eles no decorrer dos dias ou dos anos. Que nos acostumamos com as circunstâncias a nós impostas de tal forma a ignorar ou não enxergar os problemas dos nossos companheiros de trabalho, achando que tudo é normal: a tristeza, a apatia, o desânimo, a solidão, o stress, a depressão, achando que tudo é passageiro, mesmo, quando não é?

Ou, de um sistema falido que tira todas as nossas forças, nos exauri de tal maneira, que nos deixa tão fracos, tristes, deprimidos, levado-nos a cometer tamanha tragédia? Um sistema que nos deixa à margem de tudo e de todos, que quer de nós somente o trabalho que podemos dar, e nada mais. Um sistema que nos trata como números, que ora nos adiciona e ora nos subtrai.

Quantos de nós serão subtraídos pelas próprias mãos? Quantos mais serão?

Quantos de nós ainda perecerão até tomarmos a decisão de nos unir e exigir os nossos direitos?

Direitos como cidadãos. Direitos como profissionais.

Quantos de nós perecerão até levantarmos uma só bandeira: A bandeira dos Agentes de Segurança Penitenciária e exigir para a nossa categoria um tratamento digno e respeitoso, com melhores condições de trabalho, melhores salários, e acompanhamento psicológico e psiquiátrico decente, capaz de diminuir, e talvez, até erradicar casos como estes os quais estamos vivendo?

Quantos de nós ainda perecerão até pararmos de achar que tudo o que acontece conosco é normal ou ócios do ofício?

Quantos de nós ainda perecerão até pararmos de aceitar tudo o que nos é imposto de forma pacífica, esperando e rezando, que o nosso, não seja o próximo nome na lista do obituário? 

Marc Souza

 

O CVV - Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email, chat e Skype 24 horas todos os dias.

Ligue 141 ou acesse http://www.cvv.org.br/

 

 
 Marc Souza - Agente Penitenciario, Escritor e Diretor do Sifuspesp